Mãe-da-lua: Verdades e Lendas

Com o nascer da lua, uma rara ave voa pelo Pantanal, trazendo mistérios, causando encanto e criando muitas lendas em torno do Mãe-da-lua.

Mãe-da-lua (Nyctibius grandis) sentado em poste de cerca.

Ao cair da noite, quando as corujas e os morcegos saem em busca de alimento, um animal raro e quase desconhecido sai à caça também. Seu nome enigmático é Mãe-da-lua, ou também chamado de Urutau-gigante, uma ave muito especial e rara de ser vista. Uma das razões disso é sua inigualável camuflagem com coloração acinzentada e amarronzada, apresentando tons e detalhes quase que idênticos aos das texturas das árvores.

Durante o dia, a ave escolhe normalmente um galho bifurcado, ergue seu bico ao céu e, em uma posição que parece muito desconfortável, se mantém estática para adormecer sem ser importunada. A perfeição da camuflagem é tanta que o Mãe-da-lua desaparece aos olhos dos desavisados, se assemelhando de forma incrível a um galho quebrado.

A natureza atingiu um grau de especialização tão grande nos lindos olhos dessa ave que suas pálpebras possuem estruturas semelhantes a cortinas, formando pequenos orifícios ao se fecharem e permitindo ao Mãe-da-lua enxergar os acontecimentos ao seu redor mesmo de olhos fechados.

Em detalhe, a especial camuflagem dos olhos do Mãe-da-lua.

À noite, a ave é imponente. Suas asas, de 1 metro de envergadura, batem em um vôo silencioso. O Mãe-da-lua é um predador noturno, muitas vezes confundido com as corujas. Seu bico apresenta uma abertura gigantesca com “lábios” que ultrapassam o nível dos olhos, permitindo comer insetos em pleno vôo. Também se alimenta de morcegos e pequenas aves. A ave pertence à Ordem dos Caprimulgiformes, da família dos Nyctibiidae, ocorrendo no Brasil 3 espécies: Nyctibius grandis (Mãe-da-Lua Gigante); Nyctibius griseus (Urutau) e Nyctibius aethereus (Mãe-da-Lua Parda).

Porém, não se sabe se o Mãe-da-lua é raro devido a existência de poucos indivíduos na natureza ou à fantástica camuflagem. O que se sabe é que as lendas em torno dessa incrível ave são muitas. Dizem que seu canto traz mensagens do mundo dos mortos, entregando boa sorte aos amigos e azar aos inimigos. Outra lenda diz que uma índia passou grande sofrimento por um amor impossível e tamanha foi sua tristeza, que a jovem transformou-se no urutau, sendo condenada a empoleirar-se toda noite em um tronco de árvore, vagando pela noite a olhar fixamente para a Lua e a cantar sua tristeza pela falta de seu amor. A ave possui um arrepiante canto, um som alto ecoa na noite, parecendo um grito de desespero de alguém em grande perigo. Outra lenda afirma que o urutau foi um menino órfão, transformado em ave que chora triste todas as noites a perda de seus pais.

Dizem que as penas do urutau são talismãs do amor. Dizem que varrer o chão sob o véu de uma noiva, utilizando as penas da ave, garante todas as virtudes do mundo às futuras esposas. Dizem muitas coisas, porém a impressão que fica é que o urutau, ou mãe-da-lua, é uma ave mágica.

O Pantanal Selvagem

No Pantanal, nem o maior dos predadores está livre dos perigos da vida selvagem. O Pantanal é severo até com a onça-pintada.

Onça-pintada: momentos antes da caça ao queixada.

O terceiro maior felino do mundo vive no Pantanal, pode pesar até aproximadamente 140 kg e medir 2,5 m de comprimento. Esse enorme animal tem corpo robusto com musculatura muito forte e possui, proporcionalmente, a mordida mais forte entre todos os felinos.

A onça-pintada reina nas matas do Pantanal, caçando através de técnicas diferentes dos grandes felinos da África, como o leão e o leopardo. A onça espreita sua presa, chegando silenciosamente próximo a ela e ataca a curtas distâncias. Utiliza suas fortes e afiadas garras para derrubar e segurar a presa, enquanto quebra ossos e dilacera a carne com sua potente mordida. Diferentemente de outros felinos, na maioria das vezes não sufoca sua presa, mas quebra seu pescoço ou esmaga seu crânio, matando-a rapidamente.

Por outro lado, o maior felino das Américas vive na maior planície alagável do mundo, e aqui no Pantanal é possível entender o significado da palavra selvagem. A foto acima mostra uma onça-pintada adulta, porém jovem, descansando ao sol dentro da reserva do Refúgio Ecológico Caiman, momentos antes de caçar.

Nossa equipe de guias da Caiman estava passando no local quando avistou o animal. Ficamos quase 1 hora apreciando essa linda onça até o momento em que ela se interessou por um grupo de queixadas que estava ali se alimentando das raízes da vegetação vista a foto.

Com passos suaves, ela foi se esquivando da vegetação, sumindo de nossa visão e se camuflando perfeitamente. A onça já havia escolhido sua vítima e com mais alguns segundos já estava a 5 metros de sua presa. A impressão era que os queixadas não percebiam sua aproximação, mas o Pantanal esconde segredos.

Os queixadas formam grupos de até 300 indivíduos e se organizam de forma coesa. Os grandes machos sempre estão em alerta e defendem o grupo em bloco. Quando um predador ataca, o grupo “bate” os dentes, produzindo um som alto e assustador, alertando todo o grupo e intimidando o predador.

Foi exatamente isso que o grupo de queixadas fez contra essa onça-pintada vista na foto. No momento em que ela atacou o queixada escolhido, o grupo defendeu-se como uma equipe. Vendo a aproximação das enormes presas dos fortes queixadas, a onça não teve escolha, senão fugir para a mata. Veja no vídeo abaixo toda essa história e como fomos agraciados pelo Pantanal Selvagem.