Primeiros encontros

Em 2012, estava em meu primeiro ano como guia no Refúgio Ecológico Caiman, e já vinha me envolvendo como voluntário no Projeto Onçafari, no qual vim a trabalhar por um ano, mais tarde. Já havia avistado onças-pintadas algumas poucas vezes: encontros tímidos e rápidos, com animais atravessando a estrada ou relutando em chegar até uma carcaça à vista de um veículo. Afinal, o trabalho de habituação que o projeto vem empreendendo estava ainda em seus estágios iniciais. No mês de setembro daquele ano eu tive meu primeiro encontro com as onças que vieram a ser chamadas Esperança e sua filha, Natureza: foi meu primeiro avistamento de qualidade, e início de um longo relacionamento do projeto com elas duas.

Eu estava guiando grupo na Pousada Baiazinha e naquela noite, o Projeto Onçafari havia agendado um safari noturno com um de nossos hóspedes, e precisavam de alguém para manejar o silibim (holofote de mão) e fui ajudar. Guiando, estava meu grande amigo Lawrence Weitz, um tremendo naturalista e ser humano, ranger sul-africano com longa experiência com turismo de vida selvagem e grandes gatos, e que estava trabalhando com o Projeto à época. A única pista que tínhamos era a carcaça velha de um boi, encontrada naquela tarde por Lawrence após duas horas rastreando uma fêmea. Como disse, a carcaça era velha e não muito promissora. Ainda assim, vimos os olhos brilhantes de uma onça arredia, que logo correu e não nos deixou ver mais… Continuamos numa busca ativa, contando apenas com a sorte.

20 minutos mais tarde passamos pela cena, eu e Lawrence, nos dando conta do que estava acontecendo ao mesmo tempo. A 15 metros de nós, dentro da vegetação ao lado da estrada, Esperança estava sentada ao lado de uma grande carcaça de boi, fitando-nos, austera. Atrás da carcaça, Natureza, ao tempo com cerca de 8 meses de idade, deitada, levantou a cabeça para nos medir. Vocês podem ter um gosto do que se passou em seguida no vídeo. Foram 5 horas consecutivas de contato com elas duas, período no qual ambas demonstraram grande confiança em nós, culminando com a filha, Natureza, aproximando-se a 5 metros de nós, deitando e dormindo profundamente, sem medo.

Foram circunstâncias excepcionais: eram dias extremamente quentes, e ela havia matado a grande presa ao lado de um açude, sob sombra densa. Para nós, esta foi a explicação para estes animais não terem deixado a carcaça pelos próximos 4 dias – elas tinham tudo que precisavam lá: comida, sombra e água fresca. Normalmente, estes animais só se alimentam na mesma carcaça por duas noites consecutivas, e tendem a distanciar-se das carcaças durante as horas mais quentes do dia, para refúgios mais frescos e confortáveis. Mas naquela ocasião, pudemos visualizá-las dia e noite na área até o quarto dia, quando uma outra fêmea com seu filhote – a Yara e o Yvo – chegaram à cena e os animais dispersaram após um conflito que infelizmente não presenciamos, mas pudemos apenas identificar os sinais.

Esta primeira experiência moldou minha visão e forma de lidar com estes majestosos gatos. E acredito que as influenciou bastante também: nos encontros subseqüentes com Esperança e Natureza elas mostraram um aumento de confiança exponencial, deixando-nos chegar cada vez mais perto. No mês seguinte, o Projeto Onçafari capturou a Esperança, e eu trabalhando na captura como voluntário, tive o privilégio de ajudar a carregá-la, tocar em seu pêlo. Essas duas onças figuram ainda hoje entre as nossas mais habituadas e avistadas, sintetizando história de sucesso do Projeto: hoje a Esperança está criando a sua segunda ninhada após a Natureza; e a Natureza já criou sua primeira ninhada. Sabemos que filhos de fêmeas habituadas já crescem habituados e, acompanhando a nossa terceira geração de onças habituadas, sem dúvidas teremos este ano uma alta temporada de muitos avistamentos!

Escrito, filmado e editado por:

Diogo Lucatelli – chefe dos guias no Refúgio Ecológico Caiman